Olho para a tela e desperto minha imaginação, que estava absolutamente bloqueada. E eu não vi o por quê. Mas era simples: onde eu estava escrevendo.
Um laptop recém comprado, bonito. Mas não tinha aquele mesmo calor e brilho que meu computador antigo tinha; por mais velho do que eu, lento e pertubado, ele que me inspirava. Era onde todas as idéias começaram.
Observei o teclado do laptop.
Era extenso. Sem relevo, com nenhum som perceptível. Procurei recordar do antigo. O teclado era barulhento e macio. Cada tecla tipo um som. Mais abafado, alto e estridente, como o da barra de espaço.
As letras faziam uma melodia familiar. Soavam como um relógio antigo, tic-toc, no ritmo de meus pensamentos mais doces. Eu escrevia rápido -tornando tudo mais sonoro, o que me deixava cada vez mais íntima e confortável com o texto.
Não havia estrofe ou parágrafo que não me soasse raso. Era tudo escavado, com o merecimento de uma continuação.
Sinto saudades da pequena escrivaninha que abrigava o computador velho. Era amadeirada, de uma cor bonita, com marcas de copos de café e alguns papéis espalhados por ela. O som das gavetas escorregando para fora cada vez que eu procurava um documento, ou do telefone tocando um "tri-li-li-lim" incansávelmente até dar-lhe atenção. O maço de papéis recortados em quadrados irregulares -chulo bloco- e uma caneta sem tampa falha ao lado, para eu anotar uma válvula que me daria idéia para outro texto.
Senti culpa ao me lembrar da página do World aberta e uma página totalmente em branco a ser prenchida. Soltei um suspiro ao lembrar do pequeno mouse. Um fugitivo incansável, que insistia em travar ou escorregar me fazendo clicar em algo indesejável -como um de meus e-mails de propaganda que levavam anos para abrir.
Se não tivesse sido atingido por um vírus devastador, eu estaria melhor. Mais leve, em harmonia, sentada na cadeira almofadada, em frente a uma tela tijolão de computador, ouvindo o tilintar do teclado e levando um café ou um biscoito a boca.
Terei de me acostumar com o silencio e o music player ligado para me reconfortar. Ficar chocada com a mobilidade do notebook de ficar comigo aonde quer que eu vá. Mal acostumando-me a ficar na cama, de pernas para o ar, e permanecer ali até a hora do almoço.
Sinto falta das incansáveis horas a frente do PC mais lento e velho, mas me sinto um pouco melhor de não ter que me preocupar com vírus ou downloads infernizantes. A tecnologia avança, e além do que, já estava na hora de seguir em frente, me levantar da tecnologia abundante de um computador preguiçoso e dar adeus ao ressoar do teclado, substituindo por um clock..clock, do relógio do garfield de meu quarto, abrindo também as portas para a era digital (mais rápida).

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